No mercado voluntário de carbono, o tema é confiança: certificação e integridade.
- Dr. Arlem Carvalho

- 19 de jan.
- 4 min de leitura
Nos últimos anos, o mercado voluntário de créditos de carbono ganhou espaço no Brasil como uma alternativa rápida e eficiente para empresas e projetos que buscam associar suas atividades a metas de sustentabilidade. A lógica parece simples: emitir menos, compensar o que não for possível reduzir, e transformar isso em um compromisso com o futuro.
Mas, na prática, o que sustenta o valor desse mercado não é a intenção — é a confiança.
E confiança, nesse contexto, não é um conceito abstrato. Ela é construída em cima de integridade ambiental, rastreabilidade, padronização e capacidade real de provar o que está sendo vendido e comprado. É por isso que, cada vez mais, o ponto sensível do mercado voluntário não é “ter créditos de carbono”, mas sim responder com segurança à pergunta que realmente importa:
esses créditos são legítimos, verificáveis e defensáveis?
O crédito de carbono não é um “selo”: é um ativo com risco
Uma percepção comum — especialmente fora do ambiente técnico e jurídico — é tratar o crédito de carbono como uma espécie de selo de “empresa sustentável”. Isso pode até funcionar no discurso publicitário, mas é um erro quando olhamos juridicamente para o tema.
Crédito de carbono é, na prática, um ativo ambiental e, como qualquer ativo, carrega risco: risco de contestação, risco reputacional, risco contratual e risco regulatório.
Há créditos que nascem de projetos sérios, estruturados, monitorados e auditados. Mas também existem projetos frágeis, com documentação pouco robusta, métricas duvidosas ou promessas ambientais difíceis de sustentar quando submetidas a uma análise crítica.
O problema é que, no mercado voluntário, o risco nem sempre aparece no início. Ele aparece depois — quando a empresa precisa justificar o crédito comprado, quando o mercado muda de exigência, quando um auditor questiona, ou quando uma matéria pública levanta dúvidas sobre a integridade daquele projeto.
Nesse momento, o crédito deixa de ser “solução” e passa a ser passivo.
Certificação não é burocracia: é defesa técnica do projeto
Eu costumo dizer que a certificação, no mercado voluntário, não é um “custo extra” — ela é um mecanismo de defesa. Ela é o que permite que um projeto se sustente diante de questionamentos razoáveis sobre adicionalidade, permanência, vazamento, monitoramento e metodologia.
Quando falamos em certificação e integridade, estamos falando de algo muito parecido com o que acontece no Direito:não basta ter razão — é preciso conseguir provar.
E é aqui que muitos negócios perdem solidez. Porque uma empresa pode acreditar honestamente que está compensando emissões, mas se ela não consegue demonstrar de forma verificável a origem e a legitimidade daquele crédito, ela está comprando apenas um “título narrativo”, não um ativo real.
O mercado está amadurecendo e, com ele, cresce a cobrança por padrões mais robustos de validação, verificação e rastreabilidade — inclusive com iniciativas que buscam organizar e dar mais credibilidade ao ambiente voluntário.
Integridade: o que realmente está em jogo
Integridade é a palavra que mais importa, porque é ela que define se aquele crédito tem sustentação técnica e moral.
Quando falta integridade, as consequências são bem práticas:
o comprador corre risco de greenwashing, mesmo sem intenção;
o projeto pode ser deslegitimado, perdendo valor e atratividade;
contratos ficam vulneráveis, porque não há base sólida para garantias;
há impacto reputacional, que muitas vezes custa mais do que a operação inteira.
E o ponto mais sensível é este: o mercado voluntário não se sustenta apenas por regulação. Ele se sustenta por confiança pública. E confiança pública se perde rápido quando a integridade é questionada.
Por isso, hoje, não é exagero afirmar que o mercado voluntário está vivendo um divisor de águas: ele precisa se tornar tecnicamente confiável — ou será constantemente tratado com desconfiança.
O papel do advogado: olhar além do discurso
A atuação jurídica no mercado de carbono não é só “fazer contrato”. É identificar as fragilidades antes que elas apareçam, e estruturar decisões para que o projeto seja viável não apenas no papel, mas também na realidade.
Na prática, o trabalho jurídico sério nesse mercado envolve perguntas objetivas, como:
O que exatamente está sendo comprado: crédito, promessa, cessão, direito futuro?
Existe risco de dupla contagem?
Há rastreabilidade e documentação consistente?
Quem responde se o crédito for contestado?
Qual é o nível de garantia contratual que o comprador realmente tem?
Essas perguntas costumam ser evitadas quando existe pressa. Mas é justamente a pressa que transforma oportunidades em problemas.
Reflexão final: carbono é futuro — mas futuro exige método
O mercado de créditos de carbono no Brasil tem potencial enorme. E eu acredito, sim, que ele será um dos grandes caminhos de transição econômica nos próximos anos. Mas ele só terá legitimidade se for guiado por método, responsabilidade e integridade.
No mercado voluntário, especialmente, a lógica é simples:
o que vale não é a aparência do crédito. É a capacidade de sustentar o crédito.
E sustentar, aqui, significa ter certificação confiável, boa governança, documentos sólidos e contratos bem desenhados. Sem isso, o mercado perde valor. Com isso, ele se torna uma ferramenta real de transformação — econômica, ambiental e institucional.



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