Direito Ambiental

No mercado voluntário de carbono, o tema é confiança: certificação e integridade

Nos últi­mos anos, o mer­cado volun­tá­rio de cré­di­tos de car­bono ganhou espaço no Bra­sil como uma alter­na­tiva rápida e efi­ci­ente para empre­sas e pro­je­tos que bus­cam asso­ciar suas ati­vi­da­des a metas de sus­ten­ta­bi­li­dade. A lógica parece sim­ples: emi­tir menos, com­pen­sar o que não for pos­sí­vel redu­zir, e trans­for­mar isso em um com­pro­misso com o futuro.

Mas, na prá­tica, o que sus­tenta o valor desse mer­cado não é a inten­ção — é a con­fi­ança.

E con­fi­ança, nesse con­texto, não é um con­ceito abs­trato. Ela é cons­tru­ída em cima de inte­gri­dade ambi­en­tal, ras­tre­a­bi­li­dade, padro­ni­za­ção e capa­ci­dade real de pro­var o que está sendo ven­dido e com­prado. É por isso que, cada vez mais, o ponto sen­sí­vel do mer­cado volun­tá­rio não é “ter cré­di­tos de car­bono”, mas sim res­pon­der com segu­rança à per­gunta que real­mente importa:

Esses cré­di­tos são legí­ti­mos, veri­fi­cá­veis e defen­sá­veis?

O crédito de carbono não é um “selo”: é um ativo com risco

Uma per­cep­ção comum — espe­ci­al­mente fora do ambi­ente téc­nico e jurí­dico — é tra­tar o cré­dito de car­bono como uma espé­cie de selo de “empresa sus­ten­tá­vel”. Isso pode até fun­ci­o­nar no dis­curso publi­ci­tá­rio, mas é um erro quando olha­mos juri­di­ca­mente para o tema.

Cré­dito de car­bono é, na prá­tica, um ativo ambi­en­tal e, como qual­quer ativo, car­rega risco: risco de con­tes­ta­ção, risco repu­ta­ci­o­nal, risco con­tra­tual e risco regu­la­tó­rio.

Há cré­di­tos que nas­cem de pro­je­tos sérios, estru­tu­ra­dos, moni­to­ra­dos e audi­ta­dos. Mas tam­bém exis­tem pro­je­tos frá­geis, com docu­men­ta­ção pouco robusta, métri­cas duvi­do­sas ou pro­mes­sas ambi­en­tais difí­ceis de sus­ten­tar quando sub­me­ti­das a uma aná­lise crí­tica.

O pro­blema é que, no mer­cado volun­tá­rio, o risco nem sem­pre apa­rece no iní­cio. Ele apa­rece depois — quando a empresa pre­cisa jus­ti­fi­car o cré­dito com­prado, quando o mer­cado muda de exi­gên­cia, quando um audi­tor ques­ti­ona, ou quando uma maté­ria pública levanta dúvi­das sobre a inte­gri­dade daquele pro­jeto.

Nesse momento, o cré­dito deixa de ser “solu­ção” e passa a ser pas­sivo.

Certificação não é burocracia: é defesa técnica do projeto

Eu cos­tumo dizer que a cer­ti­fi­ca­ção, no mer­cado volun­tá­rio, não é um “custo extra” — ela é um meca­nismo de defesa. Ela é o que per­mite que um pro­jeto se sus­tente diante de ques­ti­o­na­men­tos razo­á­veis sobre adi­ci­o­na­li­dade, per­ma­nên­cia, vaza­mento, moni­to­ra­mento e meto­do­lo­gia.

Quando fala­mos em cer­ti­fi­ca­ção e inte­gri­dade, esta­mos falando de algo muito pare­cido com o que acon­tece no Direito: não basta ter razão — é pre­ciso con­se­guir pro­var.

E é aqui que mui­tos negó­cios per­dem soli­dez. Por­que uma empresa pode acre­di­tar hones­ta­mente que está com­pen­sando emis­sões, mas se ela não con­se­gue demons­trar de forma veri­fi­cá­vel a ori­gem e a legi­ti­mi­dade daquele cré­dito, ela está com­prando ape­nas um “título nar­ra­tivo”, não um ativo real.

O mer­cado está ama­du­re­cendo e, com ele, cresce a cobrança por padrões mais robus­tos de vali­da­ção, veri­fi­ca­ção e ras­tre­a­bi­li­dade — inclu­sive com ini­ci­a­ti­vas que bus­cam orga­ni­zar o ambi­ente volun­tá­rio e dar-lhe mais cre­di­bi­li­dade.

Integridade: o que realmente está em jogo

Inte­gri­dade é a pala­vra que mais importa, por­que é ela que define se aquele cré­dito tem sus­ten­ta­ção téc­nica e moral.

Quando falta inte­gri­dade, as con­se­quên­cias são bem prá­ti­cas:

  • o com­pra­dor corre risco de gre­enwashing, mesmo sem inten­ção;
  • o pro­jeto pode ser des­le­gi­ti­mado, per­dendo valor e atra­ti­vi­dade;
  • con­tra­tos ficam vul­ne­rá­veis, por­que não há base sólida para garan­tias;
  • há impacto repu­ta­ci­o­nal, que mui­tas vezes custa mais do que a ope­ra­ção inteira.

E o ponto mais sen­sí­vel é este: o mer­cado volun­tá­rio não se sus­tenta ape­nas por regu­la­ção. Ele se sus­tenta por con­fi­ança pública. E con­fi­ança pública se perde rápido quando a inte­gri­dade é ques­ti­o­nada.

Por isso, hoje, não é exa­gero afir­mar que o mer­cado volun­tá­rio está vivendo um divi­sor de águas: ele pre­cisa se tor­nar tec­ni­ca­mente con­fi­á­vel — ou será cons­tan­te­mente tra­tado com des­con­fi­ança.

O papel do advogado: olhar além do discurso

A atu­a­ção jurí­dica no mer­cado de car­bono não é só “fazer con­trato”. É iden­ti­fi­car as fra­gi­li­da­des antes que elas apa­re­çam, e estru­tu­rar deci­sões para que o pro­jeto seja viá­vel não ape­nas no papel, mas tam­bém na rea­li­dade.

Na prá­tica, o tra­ba­lho jurí­dico sério nesse mer­cado envolve per­gun­tas obje­ti­vas, como:

  • O que exa­ta­mente está sendo com­prado: cré­dito, pro­messa, ces­são, direito futuro?
  • Existe risco de dupla con­ta­gem?
  • Há ras­tre­a­bi­li­dade e docu­men­ta­ção con­sis­tente?
  • Quem res­ponde se o cré­dito for con­tes­tado?
  • Qual é o nível de garan­tia con­tra­tual que o com­pra­dor real­mente tem?

Essas per­gun­tas cos­tu­mam ser evi­ta­das quando existe pressa. Mas é jus­ta­mente a pressa que trans­forma opor­tu­ni­da­des em pro­ble­mas.

Reflexão final: carbono é futuro — mas futuro exige método

O mer­cado de cré­di­tos de car­bono no Bra­sil tem poten­cial enorme. E eu acre­dito, sim, que ele será um dos gran­des cami­nhos de tran­si­ção eco­nô­mica nos pró­xi­mos anos. Mas ele só terá legi­ti­mi­dade se for gui­ado por método, res­pon­sa­bi­li­dade e inte­gri­dade.

No mer­cado volun­tá­rio, espe­ci­al­mente, a lógica é sim­ples:

O que vale não é a apa­rên­cia do cré­dito. É a capa­ci­dade de sus­ten­tar o cré­dito.

E sus­ten­tar, aqui, sig­ni­fica ter cer­ti­fi­ca­ção con­fi­á­vel, boa gover­nança, docu­men­tos sóli­dos e con­tra­tos bem dese­nha­dos. Sem isso, o mer­cado perde valor. Com isso, ele se torna uma fer­ra­menta real de trans­for­ma­ção — eco­nô­mica, ambi­en­tal e ins­ti­tu­ci­o­nal.